O cardiologista, no seu dia a dia, convive com inúmeras histórias de vida, desde um jovem procurando prevenção primária, pessoas de meia idade em tratamento de fatores de risco ou eventos e idosos que procuram alívio para sua perda funcional. No hospital e nas emergências tratamos e enfrentamos as situações mais críticas e que, inafortunadamente, não foram passíveis de prevenção. Nesta atuação, um dia de trabalho é uma rica experiência, que acaba por nos ensinar muito sobre a vida, sobre prevenção e sobre o sofrimento. Um destes "insights" de trabalho diz respeito as previdências com a saúde. Eu costumo brincar com os pacientes que sou obrigado a falar sobre isso para cada um, para não incorrer num grande erro: promover a longevidade e não avisar que há a necessidade de se preparar para isso!!! Chamo de "AS CINCO PREVIDÊNCIAS", quais sejam: 

1. Previdência cardiovascular - é o foco de atuação do cardiologista. Quando tratamos a pressão alta ou controlamos o colesterol estamos intervindo em fatores que potencialmente aumentam a longevidade dos pacientes, reduzindo o risco de eventos (infartos do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais, eventos trombo embólicos e por fim morte). O impacto desta atividade preventiva é importante, como estamos vendo no aumento da expectativa média de vida da população e no fato de que mais da metade da população morre em decorrência de doenças cardiovasculares. Quando fazemos nossa previdência cardiovascular temos potencialmente mais anos de vida e daí vem a necessidade das demais previdências;

2. Previdência ósteo músculo articular - cada dia mais temos pessoas com muita idade e pouca autonomia e capacidade de locomoção. Há ainda muitos com complicações relacionadas a fraturas por traumas mínimos; iniciar uma atitude preventiva tem de estar diretamente relacionado ao desenvolvimento de um programa de atividade física que não deve ser só de condicionamento cardiovascular. Para viver mais e com qualidade de vida precisamos manter massa muscular, óssea e flexibilidade articular por muito mais tempo. Somente o exercício físico cumpre atingir este objetivo. Viver mais sem autonomia em geral não é uma opção e todos nós devemos nos convencer fortemente sobre a necessidade de se manter muito ativo, com exercícios efetivos pra manter nossa juventude ósteo músculo articular;

3. Previdência cognitiva e neurológica - o aumento da expectativa média de vida está associado a um importante aumento na incidência de doenças demenciais, principalmente a Doença de Alzheimer. Aposentadoria precoce, redução da atividade produtiva e de aprendizado são causas relacionadas a isso. O aumento de longevidade literalmente atropelou uma geração que se programou para a aposentadoria aos 60 anos e agora tem muito tempo pela frente e, em geral, poucas metas. Temos que conscientizar nossos pacientes que a vida mudou e se alongou. Isso nos permite e nos exige novos aprendizados, adquirir novas linguagens, novas profissões e novos relacionamentos. Manter nosso cérebro ativo é a base da manutenção da nossa saúde neuro  cognitiva. Por fim, não param de aumentar as evidências de que atividade física regular previne e retarda a evolução dos quadros demenciais;

4. Previdência financeira - a maior e mais atual discussão do Brasil! É fato que enquanto envelhecemos, nossos custos aumentam e cada vez mais precisamos nos manter produtivos. Mas um grande contingente de pessoas não consegue mais produzir e precisa de auxílio de familiares pra  sua manutenção. Aos 40 anos temos que nos preparar para o aumento de nossa expectativa de vida e tomar uma conduta efetiva pra organizar a nossa saúde financeira, permitindo tratamentos, habitação, lazer e ocupações saudáveis. Envelhecer e ter uma vida longa mas cheia de percalços financeiros, também não é uma boa opção;

5. Previdência afetiva: por fim, o que vemos cotidianamente. Só vale a pena viver se temos quem nos ame e temos a quem amar! São relacionamentos cultivados com zelo, educação, carinho e cuidado que nos são mais importantes na senilitude. Temos um universo grande de pessoas abandonadas e tristes, pois ficam sem verdadeiro afeto dos seus familiares. Cultivar nossos relacionamentos com nossos cônjuges, filhos, noras e genros é fundamental desde muito cedo e ao longo dos anos permite construir a nossa previdência afetiva pra uma vida mais longa e feliz!

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